Índia x Paquistão, o eterno blablabá
Lendo alguns relatos na Internet (como o da Renata, para o blog Indi(a)gestão), artigos, relatos de um ex-namorado fascinado pelos dois países e o clássico “Na Pele de um Intocável”, um diário de um jornalista francês que vive a realidade de um intocável; não resisti e relato o meu ponto de vista do lado de cá da fronteira em Lahore. Mas antes:
1. Não conheço a Índia pessoalmente. Não está nos meus planos, mas gostaria de conhecer um dia. O que escrevo baseia-se em relações pessoais com indianos e paquistaneses. No Brasil, no Paquistão, no Canadá e na Itália.
2. Não sou contra o Hinduísmo nem a favor do Islam (embora já tenha sido);
3. Não tomo partido em nenhuma disputa política, tenho sérias críticas ao governo e a sociedade paquistanesa e acho que a Caxemira deveria ser território do Brasil, logo, minhas opiniões baseiam-se apenas em experiências pessoais.
Individualismo
Sem sombra de dúvidas, acredito que o indiano médio seja muito mais individualista do que o paquistanês médio. Ok, não quero generalizar mas estou falando em termos gerais (euh). O jornalista Marc Boulet explicou o fato através da religião: o Hinduísmo é uma religião individualista onde praticam-se boas ações para que o ser humano não reencarne como um rola-bosta na outra vida; enquanto o Islam pregaria um equilíbrio entre a sociedade e que as boas ações fossem feitas por amor ao próximo – pois, afinal, este amor seria uma prova de amor a Deus e Ele está em todo o lugar (e que não deixariam de ter seu peso na balança no dia do juízo final).
Não acredito nesta tese. Embora prefira mil vezes viver em um país Islâmico - que prega uma sociedade igualitária - do que em um país de maioria Hindu, a religião que prega o sistema de castas em uma sociedade onde quem tem a pele mais branca e a conta bancária mais gorda é o top of the pops. A idéia do autor explicaria, em uma sociedade utópica, 100% dos problemas. Mas, ei, em sociedades de verdadinha o fator humano está acima de qualquer Estado Teocrático. Nem todos os indianos são individualistas, assim como nem todos os paquistaneses são a essência da justiça social.
Se a Índia é o país pobre e imundo que eu não moraria de jeito nenhum, o Paquistão é ainda mais pobre (mas um pouco menos imundo), mais tosco e mais conservador onde eu viveria tranqüilamente. E o único motivo são as pessoas. Lógico que muitos paquistaneses me emputecem, tais como os populares que me encaram e riem. Mas foram alguns deles que me socorreram quando ainda nem estava em apuros:
Quando voltei de Lahore para Peshawar, meu ônibus adiantou-se em 20 minutos quando paramos em um posto de conveniências entre as duas cidades. Meu celular brasileiro recusou o chip paquistanês e não tinha como avisar o Ali que chegaria antes. Resultado: fiquei esperando na estação às 10 da noite sem ter como avisa-lo. Não deu 2 minutos e o pessoal que estava ao meu lado já se propôs a me ajudar. Expliquei que estava incomunicável porque meu celular não funcionava, que não se preocupassem pois o Ali estaria ali a qualquer minuto.
A mesma mulher que apontava para mim e dava risadinhas com as amigas foi a primeira a me ajudar. No começo fiquei apreensiva. Ela me emprestou o celular, discou para a casa dele e tirou seu véu para que eu me protegesse do frio. Ela não conseguiu completar a ligação, então outro senhor se aproximou e ligou para o Ali. Em mais dois minutos eu já estava bebendo chá, um grupo já havia se formado e mobilizado celulares, taxis, casacos. Até a chegada de meu anfitrião, fui muito bem tratada. E não é porque sou branca, alta e tenho cara de estrangeira. Na verdade, estava bem a caráter e a carinha de turca engana.
Escrito por Kari às 19h34
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