Diario de uma tarde de uma sul-americana numa casinha charmosinha com jardim num suburbio classe media norte-americano
16h
Nao ha sol nem trasparencia alguma no ar de Toronto. A temperatura esta amena para aqueles que quase congelaram n
os -25 celsius com sensacao termica de -37 do final de semana retrasado (no caso, eu). Uma neblina espessa me impede de enxergar alguns metros alem da casa aqui em Scarborough, a zona leste da cidade. Casaco peludinho, botas de cano alto, luvas e cachecol.

La fui eu pro Tim Hortons (um Frans Cafe bem popular que serve o melhor "chafe" do pedaco) com meu Gay Talese debaixo do braco sob este calor siberiano no trajeto curto mais comprido do mundo . Caminhei cantarolando "In the Wee Small Hours of the Morning" do Frank Sinatra, oh ceus, nao sabia que gostava tanto desta musica. Afinal, "the darkest hour is just before down".
In the wee small hours of the morning While the whole wide world is fast asleep You lie awake and think about the girl...
16h15
Tim Hortons, Danforth Road.

Consigo manter uma conversa sobre ideologias politicas com os sapientissimos Joshua e Soraya. Mas, what a hell, nao capisco um cazzo do que essa xing ling do caixa esta dizendo!!! Pedir um cafe preto, simples, sem leite nem nada nem descafeinado nem extra-forte. Apenas um cafe. "Whppd crm, sgr, swtnr r hny?" ela pergunta. "Aaaah... whIpped crEAm, sUgAr, swEEtEnEr or hOnEy..." concluo apos alguns segundos tentando compreender aquela devoradora de vogais. "Just sugar, please". "Wrwrwrwrwrwrwrw?" e ela sorri. Eu a olho com cara de "ma che cazzo???" e ela entende minha aflicao. Chega de dialogo.
16h18
Meu cafe. Minha sopa. Meu toast. Meu Gay Talese aqui comigo. Frank Sinatra esta resfriado e eu tambem. Estico minhas pernas sob a mesa e esqueco o tempo ruim la fora. Fama e anonimato. Nova York. New journalism."Adoro!" (saudades da Petria).

olha so a minha gororoba!
17h20
O cafe esta frio. Eca. Coloco um pouco de leite pra disfarcar e engulo o conteudo rapidamente. Saio do restaurante e sigo para o supermercado chines. Sempre o vejo pela janela do onibus. Depois de mais de um mes por aqui decido conhece-lo pessoalmente. Basta cruzar a rua e caminhar. Sob este frio tudo e tao longe. Hora de acender um cigarro e caminhar, caminhar, caminhar.
17h27
Cores. Muitas cores em um pequeno mall na cinzenta avenida Danforth em um dia de neblina. Chineses, muitos. Mas minorias tambem compram suas especiarias aqui. Filipinos aqui, tailandeses acola, um jamaicano enorme e cheio de rastafaris enche o carrinho de pimentas e temperos. Ha um cheio forte de frutos do mar, quase insuportavel.
Um senhor italiano me cumprimenta em seu idioma e tento adivinhar porque em italiano (talvez por ser a unica branca ali e, por estar ali, deveria ser uma minoria). Ele escolhe alguns caranguejos com uma pinca de metal com a ajuda de um chines. As lagostas da senhorita indiana, pobrezinhas, serao cozidas em agua fervente ainda vivas. Meu lado Dr. Dollittle quer rouba-las, coloca-las numa caminhonete-tanque e dirigir ate o atlantico para liberta-las.
Sinto como se fosse uma versao brasileira e morena de Scarlet Johanson no filme "Encontros e Desencontros" caminhando entre caracteres estranhos ao som de uma caotica musica chinesa que e tocada no supermercado. Algo como "tiao shi kun nhon tchon" nao faz o menor sentido para mim mesmo apos ter estudado o idioma de Mao por alguns anos.
Nao consigo salivar por nada. Ovos de pato conservados. A foto mostra um ovo preto no meio da salada, meu estomago torce. Ou peixes recem abatidos com seus olhos arrancados. Meu estomago retorce. Tento ser politicamente correta e pensar "e outra cultura". Mas aqueles pepinos-do-mar prontos para serem consumidos nao me ajudam.
Lindas garrafas termicas para guardar o cha verde. A senhora chinesa me explica a importancia do cha verde para a saude, fala de cultura e ainda me mostra como funcionam as garrafinhas. Meu lado guasca, um tanto impaciente para percorrer o resto do supermercado, explica gentilmente que so preciso de uma garrafinha pra "guardar agua chiando pro meu chimarrao". Ela nao entende o que e chimarrao e nem sabe o que e Brasil. "Xie xie" agradeco eu e saio de fininho com duas canecas termicas de porquinho trapezista de um circo tcheco-eslovaco. Uma pra mim, uma pro Lucas (aquele que gosta de porquinhos trapezistas de um circo tcheco-eslovaco).
18h30
Para completar meu dia de average Joe, assisti a abertura do Super Bowl com a Maria. Ao melhor estilo north american poss?el: na cozinha, comendo muffins. Um show de hip hop na abertura com a presen? de alguns figur?s pol?icos locais. A audi?cia ?composta de alguns glut?s super size de coca-colas super-size e sacos de chips super-size.
Michael Douglas aparece na tela para comandar um espet?ulo patri?ico e ecl?ico com a presen? de um republicano, o Bush Daddy, e um democrata, Bill Clinton, o saxofonista charmoso e terror das estagi?ias gordinhas e fumantes n?-ortodoxas.
Uma prece aos soldados assassinos de criancinhas que lutam pela democracia e no Afeganist?. Um brinde as tropas libertadoras e torturadoras e estupradoras no Iraque. Um abra? pros americanos que ajudam as v?imas do Tsunami no sul asi?ico. Um ol?para os americanos na Bol?ia, no Qu?ec ou no Cear?
Ah, n? vamos esquecer do hino. Os afro-americanos obesos deliram na plat?a (ali n? existem magros, oh come on), oh, que del?ia ?viver num pa? racista. Os asi?icos bananas (amarelos por fora mas brancos por dentro, assim disse meu laoshi) colocam a m? direita no peito e enchem a boca para cantarem os doze primeiros acordes do hino sempre crescente estadunidense. Ca?s militarem sobrevoam o est?io. Fogos de artif?io, emoção e cultura pop perfeitamente costurados. A plat?a est?em ?tase.
N? consigo engolir a primeira mordiscada do meu muffin. Minha garganta est?bloqueada.
N? h?melhor hora para encher a minha boca paulistana com um "puta que pariu" e "capaaaaz" - se quiser ir um pouco al? das fronteiras paulistas. A Maria, uma boa canadense, acha o espet?ulo um bocado rid?ulo e ri dos americanos do estado de Buffalo que espetam bandeiras em todos os lugares para reafirmarem seu patriotismo. Ah, preciso dizer mais uma vez que me encanto cada dia mais com os compatriotas da Shania Twain?
10h
Apos tomar meu banho, descarregar e editar as fotos desse post, finalmente poderei desligar o laptop. Ouvindo Daft Punk, Queen, Leonard Cohen, Renato Carosone, Kiss e Frank Sinatra. Boa Noite! Afinal, no Brasil ja sao mais de uma da manha.
Escrito por Kari às 17h16
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